domingo, 10 de julho de 2016

Sobre se desprender e se desapaixonar

Eu não me lembro da primeira vez que meu coração bateu mais rápido ao ouvir seu nome.
E eu sempre achei que se desapaixonar fosse isso. Se lembrar desses pequenos detalhes, guardar esses pequenos detalhes numa caixa empoeirada no fundo do coração. O detalhe do pulso acelerado, das mãos suadas, das borboletas no estômago e daquela inquietação que parece não ter fim.Esses detalhes.
Mas não. Eu simplesmente não me lembro.
E eu não gosto de falar de como eu me apaixonei por você, porque eu não sei dizer. Foi uma coisa tão natural, tão simples, tão minha. Tão minha que, às vezes, eu me pergunto se foi certa dividir com você.
E tudo que eu senti por você foi natural, simples e meu. Do começo ao fim. Desde que eu me apaixonei até que eu me desapaixonei.
E, por sua causa, eu cheguei a conclusão que se desapaixonar é um processo interessante. Tão poético quanto o de se apaixonar, na minha opinião. Mas é um processo evitado, mal falado, lutado.
Mas não, não por mim. Eu não o evitei. Não o mal falei. Não lutei.
Mas eu também não chorei; não me agarrei ao que eu costumava sentir;não guardei aqueles detalhes e aquele sentimento no fundo da minha mente.
Então, agora eu vejo, que eu não me desapaixonei por você.Talvez eu nunca tenha, realmente, me apaixonado por você.
 Eu fui me desprendendo de você. Aos poucos. Lentamente. Discretamente.
Do mesmo jeito que eu fazia com as cartelas de adesivo quando eu era criança.
Sabe aquela cartela de adesivos?
Primeiro dia de aula.Começo de ano. Caderno novo, relativamente caro, com 100 páginas em branco em forma de convite de todas as coisas que vão acontecer ainda. E, é claro, uma cartela de adesivos cheinha.
E você passa meses guardando todos aqueles adesivos, tendo certeza de que os usará um dia, esperando a hora perfeita para isso.Então, de repente, você percebe que não. Você nunca realmente vai usar aqueles adesivos. Então as pessoas começam a te pedir e, aos poucos, você vai parando de dizer “não.”Vai dando os adesivos embora. Um por um. Dia por dia.
Mas aquele maior adesivo, o mais bonito de todos, que fica no meio da cartela, você não dá. Não porque ache que vai usar um dia, você sabe que não vai. Mas é que parece tão errado dar ele embora...
Até que chega o inevitável dia em que o ano acaba e você tem que jogar a cartela de adesivos fora. E não tem problema, já que ela está praticamente vazia. Só um adesivo está lá. O maior, o mais bonito, bem no meio. Te lembrando que ainda tem alguma coisa lá, mas, ao mesmo tempo, te lembrando de algo que era tão mais complexo e aos poucos, você também foi deixando ir.
Então você simplesmente joga a cartela fora de uma vez, ignorando aquela sensação de “será?”.
E começa a se perguntar o porque de ter guardado aquilo por tanto tempo.
Hoje eu percebo que eu fui me desprendendo de você exatamente como eu me desprendia daqueles adesivos.
E eu não sei porque eu te guardei por tanto tempo.Não sei mesmo. E, por favor, não me entenda mal.Eu não estou de jogando fora.Eu não sei se eu poderia fazer isso.

 Mas eu acho que, depois de tanto tempo, eu estou finalmente te deixando ir.

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